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quarta-feira, 30 de maio de 2012

CAPÍTULO UM

 Vida Nova


A primeira coisa que vou fazer agora é: abrir os vidros do carro e sentir em meu rosto a brisa do mar. Esse cheiro...
É a primeira vez que venho sem ela em cinco anos. Nós nos conhecemos numa praia daqui. Não resistimos uma a outra e nos entregamos inteiras numa relação que parecia eterna. Depois de um tempo de namoro, decidimos morar juntas. Eu me formei, ela terminou o mestrado e fomos trabalhar no interior. Mas como tudo que é eterno, num belo dia de chuva... Terminou.
Ficaram as lembranças de momentos deliciosos, que gosto de lembrar.
Assim, pensando em Ana Paula e ouvindo Nando Reis, atravessei a Beira Mar. Pela primeira vez, não me incomodei com o trânsito de Floripa às 18h de uma sexta feira.
Estava chegando para começar de novo. Aliás, nos meus 29 anos de vida, é o que tenho praticado e muito.
Cheguei ao meu novo apartamento. Vazio!
Amanhã, saio para comprar um fogão, uma geladeira, uma cama, algumas almofadas e sei lá mais o quê. Não quero pensar nisso agora, afinal, tenho ainda a segunda feira para ajeitar as coisas. Começo no Banco na terça. Hoje, vou dormir num hotel.
Meu celular está tocando: “Já vai... Calma... Onde está?”
- Oi.
- Isa, minha filha, chegou?
- Cheguei, mãe. Tudo certo. Estou no apartamento, mas já vou sair pra achar um hotel. Não dá pra ficar aqui ainda.
- Ah! Filha, queria ter ido para te ajudar, mas seu pai não pode ficar sozinho. Enquanto não puder caminhar tenho que estar sempre aqui.
- Eu sei, mãe. Como ele está?
- Bem, mas reclama de tudo.
- Então tá bem.
- Me liga, tá?
- Ligo sim. Beijos em vocês todos.
- Beijo filha. Cuide-se!
Faz dez anos que saí da casa de meus pais para morar fora, mas para eles, é como se eu ainda fosse uma menininha. Tenho que mantê-los informados de tudo. Aceitaram, com certo receio, minha decisão de viver com Ana Paula. Na época, dividia uma casa com algumas meninas. Nunca falamos abertamente sobre isso, mas não foi necessário. “Quero vê-la feliz”, minha mãe falou. “Se é o que tu queres”, disse meu pai. E assim foi, até agora.
Apartamento vazio tem eco. Está me deixando pra baixo. Amanhã, depois das compras, vou à praia. Quero ver gente bonita, bronzeada, com cheiro de sol. Quem sabe faço uma tatuagem. Isso! Sempre quis. Marcarei assim essa mudança.
Preciso achar um hotel. Preciso achar muitas coisas. Isa, você vai acabar ficando maluca! É muita coisa pra pensar.
Achei uma pousada próximo ao meu apartamento e fiquei. Só queria um banho, comer qualquer coisa e dormir. Estava ansiosa para começar vida nova. Sim, porque neste momento, na minha mente, ainda era transição. Estava no limbo, entre aquilo que deixei e aquilo que ainda não começou. Dormi.
No sábado acordei cedo, e às 9h já estava no centro da cidade, andando de uma loja para outra. Sempre tive facilidade para comprar. Escolhi aquilo que me pareceu de maior utilidade: uma cama - de casal, claro! Um guarda roupas. Estante. Fogão. Geladeira. E algumas almofadas para colocar na sala. Com o tempo, comprarei algumas coisas para decoração. Tenho dificuldade com isso, sou prática demais. As coisas subjetivas eu deixava para Ana Paula, mas agora... Ainda bem que tem armários na cozinha. Preciso de uma máquina de lavar roupas. Isso sim é importante! Como fui esquecer?
E assim passou a manhã e parte da tarde. Voltei para o apartamento, ainda aquele eco... Está tarde para ir à praia e meus móveis só chegam na segunda... Tenho que voltar para a pousada. Tudo bem, acho que vou dar uma volta, quem sabe uma boate? Quem sabe muitas coisas.


Gabriela acordou com o barulho das ondas batendo nas pedras e com o sol já querendo invadir seu quarto através da cortina de bambu.
Preguiça... “Hmmm!”, virou para o lado e deu um beijo na mulher nua ao seu lado.
- Bom dia, Linda.
- Não quero acordar, deixa eu dormir mais um pouquinho... - Respondeu Luiza, já se encaixando em Gabriela.
Ficaram mais meia hora naquela preguiça deliciosa, embaixo dos lençóis.
- Gabi, acorda! Você tem clientes esperando, seu irmão gritava e batia na porta.                         
Gabriela respondeu:
- Tô indo, já vou. Puta que pariu, para de gritar!
- Também tenho que levantar, Gabi. Tenho que ir. - Falou Luiza, num sorriso, beijando-a.
Foram para o banho. Mais meia hora...
Luiza se despediu de Gabi com um beijo.
- Você é deliciosa, menina.
E desceu as escadas em direção ao seu carro. Gabriela ficou na porta observando aquela mulher linda que lhe dava muito prazer. Sempre que podia e queria a procurava. Luiza era casada, morava em outra capital e, de vez em quando, passava alguns dias em Florianópolis.
Seu marido era um empresário do ramo de pneus e dificilmente acompanhava a mulher. Luiza aproveitava para realizar seus desejos secretos com Gabriela, que não se negava a oferecer tudo o que Luiza buscava. Além de se entenderem muito bem na cama, conversavam abertamente sobre suas vidas. Luiza contava a Gabriela os problemas com seu marido e seu filho adolescente e Gabriela dividia com Luiza seus conflitos com alguma garota, seus sonhos.
Gostava de divagar, viajar, tinha muitas idéias e também seus problemas no trabalho. Antes de aparecer, Luiza sempre telefonava, para evitar causar algum transtorno para Gabriela, caso ela estivesse namorando alguém.
E assim elas se mantinham. Luiza dirigia em direção a sua casa pensando que a qualquer momento sua Gabi encontraria uma mulher que a completaria e seus encontros ficariam na lembrança. Sabia que Gabi não conseguiria dividir amor, atenção. Ela era muito intensa, em tudo.
A primeira vez que a vira, numa boate há seis meses, tinha ficado encantada com aquela menina. Linda, bronzeada, cabelos escuros ondulados, caindo sobre os ombros. Uma tatuagem que começava na nuca e descia por dentro da blusa. Mais tarde descobriu as outras. Olhos castanhos esverdeados, o olhar profundo. Na noite em que a encontrou, não pensou duas vezes: “quero essa menina!” . E conseguiu.
Gabriela entrou em casa já sabendo o que ouviria do irmão. Tentou amenizar.
- Bom dia maninho! - Disse dando-lhe um beijo.
- Gabi, você é foda. Vai se ferrar com essa mulher, ela é casada e você, maluca! 
- Não enche maninho. Há essa hora não, tá? Preciso tomar um café.
- Quando você vai criar juízo, criatura! Se liga Gabi! - Esbravejou e antes de sair pela porta, já mais calmo disse: - O cara que marcou às 10h está te esperando já tem meia hora. Viu todos os álbuns. Não dá mais pra enrolar.
- Se ele não quiser esperar passa ele pro Daniel, que saco! - Gabi esbravejou.
- O Daniel está com cliente e tem mais: ele quer você. Hoje você tem mais 6 marcados. Portanto, anime-se.
- Que sábado! Droga!
Gabriela adorava seu trabalho, mas às vezes queria mais tempo para se divertir. Ir à praia. Principalmente num sábado, inicio de verão. Ah! As areias cheias de gente bonita. Aquelas gatas ainda branquinhas,  outras bronzeadas, todas lambuzadas de óleo. “Hmm! Hoje não poderei ir ao mar... Droga!”.
Toda manhã Gabriela mergulhava antes de começar seu dia. O mar era sua fonte de energia. Pensava no que estava perdendo enquanto se preparava para começar o dia.
Gabriela entrou na sala e se deparou com um garoto queimado do sol, cheio de tatuagens no braço. Surfista. Sentado e folheando o book de desenho de Gabi.
- Olá, bom dia. Já sabe o que vai fazer? - Perguntou a ele, enquanto vestia as luvas e pegava seu material.
- Oi, já sei sim. Esse aqui! - E apontou para um coração em chamas.
- Ok, vejo que já fez outras. Já tem experiência mas, mesmo assim, quero que preste atenção. - Disse sentando-se na frente dele e abrindo o pacote de agulha descartável. Foi explicando a ele como faria e as orientações de praxe.
Começou o trabalho e como sempre, concentrou-se como se nada mais houvesse. Trabalhava com muita precisão e seu trabalho era reconhecido. Era uma artista e o corpo, sua tela. Buscava a perfeição e era conhecida como uma das melhores da cidade.
Assim Gabi começou seu dia e terminou. O último cliente saiu próximo às 20h.
- Preciso de um banho! - Falou quando passou pelo irmão que arrumava as revistas na recepção.
- Também tô exausto. Hoje quero só dormir. Além do mais, começou o verão, maninha. Todo mundo quer colorir seus corpos. - Disse sorrindo.
- Eu sei, mas o Daniel podia ajudar, né? Saiu hoje às cinco horas, eu vi. - Gabriela falou com tom cansado.
- Mas todo mundo quer você. O que o pobre vai fazer? Ele até que tenta, mas...
Não terminou a frase pois foram interrompidos por Fernanda, que entrou correndo na recepção e se pendurou no pescoço de Pedro.
- Terminou por hoje? Tô com saudade! - Foi falando e beijando o rosto de Pedro.
Sorrindo, Pedro olhou para Gabriela que disse:
- Dormir ? Coitado...
Saindo do banho, Gabriela ouviu o celular.
-Oi
- Gabi, sou eu. Passo aí daqui a pouco. Vamos dançar.
- Ai Marina tô podre. Hoje foi foda.
- Significa que foi bom, não tem desculpa. E aquela sua sei lá o que ela é sua. Já foi?
- Já. Deve ter viajado à tarde, respondeu Gabriela.
- Então tá, passo às dez. Beijo.
- Escut...!!! - Desligou.


Puxa vida, tudo o que eu precisava era dormir, depois de uma puta noite dessas, um dia cheio. Minha caminha, ali... Ok, mas não custa dar uma volta. Vai que acho o amor da minha vida. Riu do próprio pensamento.
Isadora chegou à boate perto da meia noite; lotada, que bom! Assim passo despercebida, sento naquele balcão, bebo alguma coisa, dou um tempo e aqueço para entrar nesta nova vida que me espera.
Depois de alguns goles, já estava alegre. Muita gente bonita, adoro esta cidade. Tinha se esquecido de como é boa a vida. “Que menina bonitinha, nossa! pena que está acompanhada. Aliás, bem acompanhada, que beijo! Ui, deu até da vontade”. Assim Isadora foi fazendo um inventário do local. “Esta com aquela; a loirinha com a morena; a ruiva não pára de olhar para a mulata. Nossa!, que linda. Adoro mulatas!”
- Quer outra dose moça? Perguntou o garçom.
- Quero sim, por favor, respondi.
A música, as luzes. Preciso me mexer senão não levanto. Vou dar uma volta.
Do outro lado da boate...

- Marina, pára com isso. Não está vendo que a menina está acompanhada. Daqui a pouco a namorada dela vem aqui, aí quero ver o que vai fazer, disse Gabi.
- Vem nada e ela nem está a fim dela. Olha só, não para de me olhar, respondeu com um sorrisinho safado.
- Ai, Ai, Ai. Isso não vai terminar bem.
- Calma linda, relaxa. Olha quanta gente bonita, adoro verão, disse Marina, mostrando a pista de dança pra Gabi, que já tinha bebido 3 martinis e precisava ir ao banheiro.
- Já volto. Vê se não apronta, falou para Marina.
- Quem fala, respondeu.

Gabriela atravessou por entre as mesas e passou pelo balcão, tendo que desviar de algumas pessoas que dançavam por ali ou se agarravam entre as mesas. Por um momento, algo a fez parar.
Isadora desceu do banquinho que estava próximo ao balcão e virou-se. Não conseguiu se mexer naquele segundo eterno que se seguiu.
Seus olhares se cruzaram e se fixaram. O tempo parou: não havia música, vozes, ninguém.
Gabriela viu o mar azul, o céu, o calor. Sentiu o suor nas costas, uma vontade de se jogar de encontro às águas e se perder na intensidade daquele olhar.
Isadora viu um vulcão. As chamas que ardiam, queimavam-lhe inteira. Sentiu que começou a ficar com a face vermelha. Era como uma força que a puxava de encontro às chamas; um turbilhão incandescente, sem fim, profundo.
Alguém empurra Gabriela, que sai de seu transe. Precisava continuar caminhando; as pessoas empurravam para chegarem ao outro lado, onde ficavam os banheiros.
Isadora voltou a si, perdeu o contato daquele olhar. Não encontrou mais. Pensou em ir atrás, mas não conseguiria atravessar de onde estava; as pessoas se aglomeravam.
Resolveu dançar e foi para a pista.

Gabriela saiu do banheiro e buscou novamente pela dona daquele olhar, mas não encontrou mais. “Puxa, o que aconteceu?” Pensava enquanto procurava Marina, que a esta altura estava atracada na boca de uma menina na pista.
Resolveu voltar para a mesa, mas o olhar, agora, tinha objetivo: procurava por todos os lados, até que a viu dançando. “Nossa! Que mulher linda!” Cabelos castanhos claros, olhos azuis, um corpo maravilhoso, dentro de uma saia longa e uma blusinha que deixava sua barriga aparecendo, conforme os movimentos da dança. O cabelo balançava junto com o corpo. “Conjunto perfeito, que vontade de tocar”.
Ficou ali imóvel, observando aquela mulher que a fez perder o chão com um olhar. Não tinha coragem de se aproximar. Ela não parava de olhar. “Não posso ficar aqui parada.” Vamos, mexa-se sua tonta! Isso, caminhe devagar.  Dê tempo dela fugir se quiser. Acho que não quer fugir.”
Isadora, movida por várias doses de wisky, dançava, flutuava. “Será que ela não vem aqui? Porque fica me olhando? Porque não se aproxima? O que eu faço? Que menina linda. Aquela tatuagem na nuca, no braço, onde mais? Aquele cabelo, que boca! Vou olhar para ela. Será que ela vem? Deu certo. O que faço agora? Está vindo, meu Deus!”

2 comentários:

  1. Gostei do início, tudo muito intenso.
    Parabéns! Bjs

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  2. Adoro a forma como escreve, como coloca os sentimentos e pensamentos das personagens....você é de um talento ímpar. Parabéns!

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