Seguidores

quarta-feira, 30 de maio de 2012

CAPÍTULO DOIS

 UM ENCONTRO

Gabriela se aproximou. “O que digo? Nada, ela não vai me ouvir mesmo. Nunca me senti tão insegura. Vai Gabi, você é pegadora!”, disse para si mesma. Movida pelo instinto ou pela vontade, segurou Isadora pela cintura com uma mão e com a outra afastou seus cabelos para trás. Puxou-a para próximo de seu corpo, encostou a boca em seu ouvido e disse:

- Estava te procurando. 

Isadora sorriu e fez o mesmo; falou próximo ao ouvido de Gabi:

- Já Encontrou.

Afastou o rosto e seus olhos se encontraram pela segunda vez. Calor, maremoto. Gabi se aproximou da boca de Isadora. Devagar, encostou, primeiro passou os lábios nos dela, como se quisesse sentir a textura. Segurou o lábio inferior com os seus. Isadora fez o mesmo com o lábio superior de Gabi. Estavam se experimentando. Trocaram, Isadora apertou, deu uma mordida leve, devagar, sem pressa. Os corpos se movendo no ritmo da música. Gabi passou a língua, Isadora abriu a boca e Gabi entrou. Beijaram, explorando, com calma. Uma língua procurando a outra. Conhecendo, até que as bocas se mostraram sedentas, uma da outra. Aos poucos, a avidez toma conta das duas: uma sugando a outra, explorando com suas línguas... Entregaram-se naquele beijo. Não percebiam mais a música, nem as pessoas. Tudo, num único momento.

Um momento: tempo indefinido, o suficiente para escrever uma frase de amor, lembrar a letra de uma música, ver o sol surgir no mar, ficar em cima de uma onda, alguém gritar: “Terra à vista!” . Descoberta, êxtase!

Até que...

- Gabi, temos que ir embora, rápido! - Marina chegou empurrando os casais que dançavam e tirou Gabi dos braços de Isadora.

- Tá louca? O que houve? - Perguntou Gabi.

Quando terminou de falar, viram uma mulher vindo em direção a elas, pronta para avançar em Marina.

- É a namorada daquela menina. Ela nos pegou num beijo e vai me matar. Vamos, rápido! Vem! E puxou Gabriela pela mão, passando no meio das pessoas, empurrando, correndo.

Gabriela olhava para trás. A mulher correndo atrás delas enfurecida enquanto só conseguia pensar: “Onde ela está?”

Parou de correr:

- Me solta Marina. Para!

“Perdi ela. Não perguntei o nome, não sei o telefone. Droga! Se essa mulher não te matar eu vou!” – Pensou, mas não falou.

Saíram porta a fora da boate, em direção ao carro. Quando entraram no carro, Marina acelerou. Ainda viram a mulher xingar no meio da calçada.

Isadora procurou Gabi no meio da pista, entre as mesas. Que loucura! O que foi isso? Aquela maluca a puxou e saíram correndo com a outra maluca atrás. Nossa, que beijo! Como vou encontrar essa menina? Não sei nem o nome. Será que era a namorada? O QUE FOI ISSO!?

- Desculpa, desculpa - dizia Marina baixinho.
- Que merda Marina, eu te avisei que ia dar merda.  Preciso voltar lá! - dizia Gabi gritando.
- Eu não posso. Você viu, ela era enorme. Se me pega acaba comigo.
- Droga! Droga! - Batia com a palma da mão na própria testa - Como vou encontrá-la? Não sei nem o nome - falou quase num sussurro pra si mesma.
- Por que antes de agarrar a mulher, você não perguntou o nome, o telefone, o CPF...
- Cala a Boca!
- Tá, não falo mais, desculpa. Não queria estragar sua noite... - falou olhando em desespero para Gabi.

Isadora tomou um banho e foi pra cama, pensando naquele olhar, naquele beijo.

“Tenho que encontrá-la, voltar naquela boate de novo. Preciso encontrá-la.”

Lembrou das sensações que sentiu com aquele toque, aquela boca. Ficou excitada, não conseguia dormir. Imaginou aquela boca em seu corpo e não foi difícil aliviar a vontade. Depois dormiu.

Gabriela olhava para o teto do seu quarto, mas não via nada, somente aquele olhar. Precisava tocar naquela mulher, beijar aquela boca. Aquele corpo maravilhoso, nu, na minha cama. Abraçou o travesseiro, sentia vontade de fazer amor com ela, precisava; se tocou e dormiu.

Isadora acordou tarde, tomou banho, café e saiu da pousada. Foi até seu apartamento, fez uma faxina geral. Queria ocupar seu tempo e sua mente, mas não adiantou muito. De vez em quando, flashes daquela noite apareciam em sua mente. Passou parte do domingo no apartamento e depois voltou para a pousada. Já era tarde e ainda não tinha almoçado. Sentiu fome, pediu um lanche e ficou na frente da TV pensando naquele olhar, no beijo. Dormiu cansada. Seu último pensamento: um olhar.

Acordou perto das dez da noite e terminou o domingo lendo material do Banco, pois tinha que se inteirar da rotina da nova agência. Tinha esquecido o trabalho, o Banco.

Gabriela acordou e foi para praia, como sempre fazia. Como no domingo não trabalhava, aproveitou para caminhar, conversar com amigos na praia e brincar com Xis, um labrador branco, orgulho de sua dona. Enquanto corria com Xis, relembrou todos os detalhes daquela noite, do encontro inesperado, daqueles olhos azuis.

Almoçou com Pedro no restaurante de Dona Ziza, que consideravam uma segunda mãe, desde que seus pais haviam morrido em um acidente na BR, há alguns anos. Pedro tinha 20 anos e assumiu a guarda da irmã. Desde então, Dona Ziza tomou conta dos dois e se preocupava para não deixar faltar nada que estivesse ao seu alcance, inclusive colo. Dona Ziza não tinha filhos; transferiu para eles todo o carinho que tinha.

Pedro estava com 28 anos e Gabriela com 24 mas, para Dona Ziza, eram crianças. Sempre preocupada. Os pais deixaram além de uma casa, numa das melhores praias da ilha, um apartamento próximo a universidade, que mantinham alugado para estudantes e um seguro em dinheiro, que os irmãos investiram na loja de tatuagem, a qual Pedro administrava com todo cuidado, realizando, assim, o sonho de Gabi.

Pedro forçou, literalmente, Gabi estudar. Fez com que entrasse na universidade. Ela se formou em ciências sociais, mas nunca trabalhou na área. Fez diversos cursos de arte e se especializou em tatuagens, sua grande paixão. Pedro cursou administração, que coloca em prática na loja. A casa que herdaram transformaram num grande negócio. Tinham uma grande artista e um bom administrador; e um funcionário, Daniel.

- Você está muito estranha minha irmãzinha, o que houve? Que olhar distante é esse?
- Nada Pedro, depois falo, olha a Ziza aí, respondeu.

Dona Ziza serviu os irmãos e se sentou com eles.

- Vocês dois precisam se alimentar. Olha essas olheiras, falou colocando a mão no rosto de Gabi.
- Que nada Ziza, ela ontem foi pra putaria, por isso tá assim.
- Que isso Pedro, não fala assim da sua irmã.

Os dois caíram na risada. Almoçaram fazendo brincadeiras que deixavam dona Ziza encabulada. Os irmãos saíram abraçados do Bar da Ziza e Pedro perguntou:

- Vai me contar?
- Ontem encontrei uma garota na boate - falou e suspirou.
 - Que ótimo! Como foi? Me conta tudo.

Foram caminhando e Gabi contando ao irmão o que havia acontecido na noite anterior. A cada cena empolgante ele dizia: Puta que pariu!

No final do relato Gabi perguntou:

- Será que vou conseguir encontrá-la de novo?
- Vai sim, vou te ajudar. Vamos fazer plantão naquela boate. Só abre quinta, né? Faremos vigília, falou rindo. O que acha?
- Você é o melhor irmão do mundo, sabia? Mas não vamos exagerar, né? De repente encontro ela e ela nem se lembra de mim. Então, deixa rolar. Vou lá, sem compromisso, sem expectativas. Falou com olhar preso ao mar, acentuando os tons verdes.
- Certo, você quem sabe. Deixa rolar, só me mantenha informado ok?
- Que acha de um cineminha? Combinei com a Fernanda, topa?
- Não Pedro, vou ficar em casa. Tenho um stencil difícil pra terminar até terça. Assim me distraio, ok?
- Tá bom maninha, faça o que achar melhor. Deu um beijo em sua testa e entrou na casa.

Pedro quando soube da preferência da irmã por mulheres, a princípio ficou preocupado, não entendia muito bem. Mas, com o tempo, aceitou e a apóia.

Gabi ficou ali, por mais uns instantes, olhando o mar e lembrando daqueles olhos azuis.

Segunda feira. Isadora acordou cedo, pois seus móveis chegariam ainda de manhã. Fechou a conta, pegou a mala pequena, que havia separado com algumas roupas para ficar na pousada e foi para seu apartamento.

Esperou até as dez horas. Já estava a ponto de ligar para a loja, mas daí o interfone tocou. Chegou!

Em menos de meia hora já estava com tudo dentro do apartamento. O montador havia começado a desencaixotar o roupeiro e a montar: “Vai ser rápido moça, vai ver só, faço isso rápido”, disse num tom de exibicionismo.

Isadora riu e foi pra cozinha. Ligou a geladeira, limpou, colocou algumas coisas que tinha comprado. Foi até o quarto; o montador estava parado de pé, com uma mão na cintura e outra coçando a testa. Isadora pensou: “fácil é?”. Resolveu arrumar o armário, louças, panelas, copos, talheres, tudo novo. “Assim que eu gosto”, pensou. Não trouxe nada de sua ex casa, não queria nada que lembrasse Ana Paula. Assim seria mais fácil.

Depois de três horas foi até o quarto. “Puxa, até que enfim terminou”, disse ao montador, que suava como um camelo no deserto.

– Em, esse foi mais difícil, mas ficou bom.
- Certo, muito obrigada! - Disse já se dirigindo para a porta e abrindo para ele sair.
- Tchau moça e boa sorte.
- Pra você também. E fechou a porta.

Encostou-se à porta pelo lado de dentro, escorregou até o chão, sentou, pensou em tudo que passou nos últimos anos, em todas as vezes que começou e recomeçou. Na vida que tinha, nos sonhos, em Ana Paula, no dia que se encontraram no bar do Xico. Chorou, chorou pelas lembranças boas, chorou por estar esquecendo Ana Paula, chorou até secarem suas lagrimas.

“Chega Isadora! Agora sua vida vai mudar”, falou alto para sim mesma e se lembrou daquela menina linda que beijou na boate.

E assim terminou seu dia: arrumou o que faltava no apartamento, limpou, ligou para sua mãe, tomou banho e foi dormir. Seu último pensamento: aqueles olhos profundos que lhe queimaram a pele, aquela voz no seu ouvido, aquele beijo.
  
 
Segunda era dia de limpeza na loja de Gabi e Pedro. Não marcavam clientes e aproveitavam o dia para organizar, limpar, conversar e planejar tudo o que não conseguiam durante a semana.

Gabi terminava alguns desenhos e Pedro selecionava alguns cds para deixar disponível para a semana.

- Gabi, estive pensando. O que acha de tentarmos expandir a loja?
-Como assim Pedro? Expandir pra onde? - E riu.
- Não disse isso. Estive pensando naquela franquia que nos ofereceram, lembra? A loja de materiais de Surf, acho que podíamos pensar, não acha?
- Não sei Pedro, acho que estamos muito bem assim. Além do mais, não temos o dinheiro que eles pedem para o investimento.
Gabi olhou para Pedro preocupada, sabia que o irmão já havia decidido.
- Isso posso tentar no Banco, afinal, somos ótimos clientes, sempre trabalhamos direito. Amanhã mesmo vou ao banco - disse e sorriu para Gabi.
- Se quiser tentar tudo bem, mas não quero mudar minha vida, que isso fique bem claro, ok? - Olhou nos olhos do irmão.
- Não se preocupe, não vai mudar, vai melhorar! - Falou enquanto abria uma garrafa de água.
- Melhor? Minha vida é ótima, faço tudo que gosto, tenho quase tudo que quero, que mais poderia querer? - Mas lembrou: encontrar de novo aquela mulher linda.
- Certo, mas mesmo assim, vou ao banco amanhã. Disse e saiu, deixando Gabi com seus desenhos e pensamentos.

Isadora chegou ao Banco antes das oito da manhã. Teria um dia cheio: reuniões com gerência, conhecer a carteira que assumiria, conhecer colegas, clientes, estava ansiosa.

- Bom dia, deve ser a Srta Isadora? - Perguntou um senhor grisalho e charmoso.
- Sim sou, bom dia - respondeu já sabendo quem deveria ser aquele homem
- Ótimo, meu nome é Marco Aurélio, gerente desta agência. Quero lhe mostrar a agência e depois sua mesa, por favor...
- Sim senhor...
- Isadora, temos que combinar algumas coisas: primeiro, não me chame de senhor; segundo, qualquer dúvida me chame; e terceiro, quero que esteja bem à vontade para falar e dar sugestões sobre a carteira de clientes que vai assumir, ok? - Falou olhando para Isadora, diretamente em seus olhos, com uma expressão que lhe transmitia segurança, o que a deixou um pouco mais tranquila.
- Desculpe sen..., digo, Marco Aurélio. Com certeza, depois de me inteirar das contas, vou querer conversar com o senh..., digo, com você.
- Certo, você vai ver que não muda muito daquilo que já estava acostumada. A diferença é o volume. Aqui vai trabalhar com uma carteira maior, mas os problemas são os mesmos. Vou deixá-la se familiarizando e quando o pessoal chegar, começo as apresentações. Vai gostar da equipe.

Enquanto falavam, caminhavam pela agência. Marco Aurélio foi explicando a Isadora o funcionamento e mostrou sua mesa.

- Obrigada, respondeu, estava ansiosa. Será que iriam gostar dela?

Seria uma das gerentes do Banco que assumiria a carteira de micro empresas. Tinha que dar certo...

Na parte da manhã, Isadora conheceu os funcionários, teve algumas reuniões com outros gerentes e foi se ambientando, adaptando-se as novas pessoas. Estava gostando, os funcionários do Banco a analisavam: nova gerente, mulher bonita. Foi alvo de olhares de cobiça por parte de alguns.

- Ela não sorri - disse Clarice para Marta.
- Deve ser uma pedra - respondeu a outra.
- Será que vamos ter problemas?
- Vamos descobrir, já... já - disse Marta, que foi em direção a mesa de Isadora e a convidou para almoçar .

Almoçou com um grupo que saiu 13:00: Marta, Clarice, Gustavo. Conversou, riu, ouviu histórias engraçadas e voltou para o Banco, mudando, assim, a opinião de Marta e Clarice.

- As aparências enganam, viu? - Disse Marta para Clarice.
- Tem razão, engana mesmo e como! Aqui no Banco parece tão séria, fria, mas no fundo é um doce - respondeu a última palavra como num suspiro, sem tirar os olhos de Isadora.

Estava em sua mesa analisando alguns papéis quando Gustavo a chamou. Gustavo era um dos gerentes que divide a carteira de empresas com Isadora.

- Isadora este é Pedro um de nossos clientes. Por favor Pedro, sente-se aqui. - Puxou a cadeira na frente da mesa de Isadora.
- Boa tarde Pedro - falou Isadora e pensou: “mas já!”
- Olá!  - Respondeu Pedro, sentando-se.
- Isadora, Pedro quer expandir seus negócios e precisa de auxílio financeiro. Vou deixá-lo com você, ok?
- Certo, obrigada Gustavo. Pode deixar que eu assumo daqui, respondeu Isadora demonstrando segurança.

Pedro explicou à Isadora seus planos. Disse quanto precisava e que objetivava um empréstimo. Isadora ouvia atentamente, embora a estória fosse sempre a mesma. Já estava acostumada.

- Pedro, é uma quantia bastante alta, você concorda não? Você sabe que precisamos de garantias e as que oferece estão bem aquém do dinheiro que precisa.

Pedro olhou para ela irritado, já demonstrando irritação.

- Temos condições de pagar, falou. Pode verificar nosso faturamento.
- Não estou duvidando disso, mas aqui só podemos contar com coisas concretas e, no momento, o valor que pode dispor do banco seria, no máximo esse: e mostrou o valor no papel. - Continuou... - Você quer partir de um negócio singelo para um grande empreendimento, tem que ir com calma. - Fez mais algumas explanações técnicas sobre o processo e esperou a reação de Pedro.

Pedro demonstrou sua indignação com o olhar, levantou e saiu irritado. Abriu a porta do Banco, nem olhou pra trás.

Isadora pensou: muito bem, começou! Mas Gustavo poderia ter esperado mais um dia para transferir os clientes para ela. Tudo bem! O dia passou; atendeu alguns clientes, conversou com colegas e, de vez em quando, pensava naquela menina, naquele beijo. Queria encontrá-la de novo.

Gustavo passou por ela no final do dia e perguntou:

- Como foi seu primeiro dia? - Sorriu.
- Foi ótimo, tirando o fato de que alguns saíram correndo - falou Isadora.
- Então já está adaptada - deu uma gargalhada.
- Isadora, por favor, venha até minha mesa - chamou Marco Aurélio.

Marco Aurélio queria saber como tinha sido seu primeiro dia e se tinha algo que pudesse ajudá-la.

Depois da conversa com Marco Aurélio, Isadora estava saindo do Banco, quando Marta e Clarice a chamaram para tomar um chopp na lanchonete próxima ao Banco. Ela aceitou.

A conversa foi agradável. Contaram de suas vidas. Descobriu que Marta era casada e tinha um filho. Clarice havia se divorciado há 1 ano. Estava em busca de um novo amor, segundo ela. Quando chegou sua vez de falar, contou que tinha saído de uma relação há pouco tempo. Omitiu alguns detalhes, afinal não precisavam saber mais do que isso.

Combinaram de ir à praia qualquer dia. Clarice estava empolgada em falar de alguns bares para a nova amiga. Enquanto falava, tirou a blusa, ficando com outra, de alcinhas, com um decote deixando aparecer uma tatuagem que tinha acima do seio direito.

Isadora disfarçou, mas olhou. Era uma rosa vermelha, muito bonita. Perguntou:

- Onde você fez sua tatuagem?
- Numa praia aqui, em Floripa. Se quiser, te levo lá, gostou? Perguntou com meio sorriso entre os lábios.

Isadora não entendeu ou entendeu?

- Gostaria sim, estou pensando muito em fazer uma, mas ainda não sei o que, nem onde - e riu.
- Então vai gostar, porque a menina que faz é muito boa. Ela te ajuda a escolher. Inclusive, faz o desenho na hora.

Depois de mais um chopp, resolveu ir para casa, afinal, para o primeiro dia estava de bom tamanho.

Pedro chegou em casa depois das 20:00. Gabriela já estava preocupada, quando ouviu a porta da sala bater.

-Pedro, onde esteve? Saiu cedo e está chegando agora? Que houve?
- Não consegui o empréstimo! - Esbravejou.
- Não fica assim, sabia que era difícil - tentou acalmá-lo .
- Mas aquela prepotente sequer me deu chance. Uma grossa, mal amada, fria!
- Pedro, calma. O que tem a ver isso com o fato de não termos condições de pegar o empréstimo? Você já sabia disso. Não é o primeiro “não” que você ouve.
- Tem que, ela não fez o menor esforço de entender, de me ouvir, não me deu chance. Ainda chamou nossa loja de “singela”, acredita? - Falou e foi para o quarto.

Gabi pensou: “eu sabia, mas é teimoso; agora sofre”. Continuou o que estava fazendo, sentada, olhando o teto e pensando naquela mulher.

A semana passou rápido para Isadora. Estava ansiosa para chegar quinta-feira. Iria à boate novamente, procurar aquela menina que não saia de sua cabeça.

Chegou em casa perto das nove, saiu tarde do banco, pois teve reunião com Marco Aurélio e outros gerentes. Tomou banho, relaxou, vestiu-se. Vestido colado ao corpo, preto, sandália, maquiagem leve, perfume – Eternity, cabelos soltos. Olhou-se no espelho, falando para si mesma: “Isadora Marinho, se eu encontrar uma mulher como você eu pego!”.  Riu e saiu.

Dona Ziza entrou correndo na casa de Gabi e Pedro dizendo:

- Preciso de vocês. Tenho um aniversário no bar, marcaram de última hora. Não consigo gente para trabalhar agora, vocês têm que me ajudar.
Parecia uma metralhadora, não parava de falar.

- Calma Ziza, claro que te ajudamos - falou Pedro olhando para Gabi que o fuzilou.
_ Eu não posso, hoje não! - falou indignada, sabendo o que aconteceria.
- Tudo bem minha filha, não se preocupe - falou dona Ziza, com olhar de pânico.

Pedro olhou para ela, ela olhou pra Ziza e disse:

- Tá bom mas, no máximo, meia noite saio, certo?

Dona Ziza deu um beijo nos dois e correu para o restaurante. Pedro e Isadora foram logo depois. No caminho, Pedro pediu para Fernanda também ir para ajudar, o que prontamente concordou. Adorava estar com Pedro.

Isadora chegou na boate passava um pouco da meia noite. Estava ansiosa, mas tentava se manter no controle da situação. Como sempre não demonstraria. Sentou-se no balcão e pediu uma dose de whisky. Olhou ao redor, tinha menos gente do que na semana passada. Ainda era cedo, do local onde estava, conseguia ver a porta e observava as pessoas que entravam, procurando.

- Mais um, por favor - pediu para o garçom.

Já era quase uma hora, estava ficando nervosa com os olhares e cantadas que recebia. Percebeu uma pessoa chegar por trás e ouviu uma voz conhecida.

-Você aqui? Estou surpresa.
- “O...oi Clarice - disse virando-se para ela.

Droga, tudo que eu não precisava: encontrar uma colega do Banco numa Boate GLS. Mas que idiota, claro que corro esse risco. Não devo ser a única lésbica que trabalha naquele Banco de merda. Droga, onde está essa menina?

- Está sozinha? Posso fazer companhia para você? Não quero atrapalhar.
- Imagina, senta aí, falou dando um sorriso amarelo.
- Não imaginei que encontraria você aqui - sorriu
- Nem eu achei que você estaria aqui - disse olhando para a porta.
- Está esperando alguém? - Perguntou Clarice, virando-se para a porta
- Eu? Não, claro que não. Por quê?
- Nada, pareceu... - disse Clarice olhando com curiosidade para Isadora.

Gabriela, nervosa, olhou para o relógio: uma e meia. Puta que pariu, pensou, enquanto colocava as garrafas de cerveja vazia na caixa.

- Gabi, minha filha, vai. Você disse que tinha que sair, já atrapalhei muito você hoje. As pessoas já estão indo embora. Você pode ir minha filha, vai!

Olhou para Ziza, deu um beijo na bochecha e saiu correndo. Chegou em casa, tomou um banho rápido, ligou para Marina enquanto vestia a calça jeans desbotada, uma bata indiana, brincos, sandálias. Com as mãos, arrumou os cabelos. Desceu as escadas correndo e esperou Marina.

- Porque demorou tanto? - esbravejou.
- Oi para você também. Hmmm, bonita, cheirosa, vai arrebentar hoje. Aquela mulher vai ficar de quatro pra você, falou Marina.
- Não sei nem se vou encontrá-la, olha a hora, duas e quinze. Até chegarmos lá. E também, nem sei se ela estará lá - falou suspirando.
- Calma Gabi, ela vai estar sim. Depois do que me contou, acredito que ela também queira encontrar você, disse sorrindo com ar malicioso.

Isadora não aguentava mais as investidas de Clarice. Olhou no relógio, duas e quarenta e cinco. Ela não vem.

Enquanto isso, Clarisse pensava: “Isadora ficou a noite toda olhando para porta e eu aqui feito uma idiota tentando chamar sua atenção.” Percebeu que era sua última chance de agarrar aquela mulher linda:

- Que acha de dançar, vamos?

- Desculpa Clarice, adorei sua companhia mas amanhã trabalho e você também. Acho que vou pra casa, disse com ar desapontado.

- Ok, vou com você. E levantou-se junto com Isadora.

- Ali Marina, estaciona ali, que merda! Quase três horas - disse.

- Calma... pronto, vamos - disse Marina, puxando o freio de mão.

Marina pegou Gabi pela mão e caminhou rápido, estavam quase na porta.

Clarice colocou a mão na cintura de Isadora para não a perder no meio das pessoas e se dirigiram para a porta.

Na porta, pela terceira vez seus olhares se encontraram. Isadora viu a decepção estampada no olhar de Gabi, quando desceu os olhos para a mão de Clarice em sua cintura. Transformou-se em raiva, queimando-lhe. 

Gabi viu mar revolto naquele olhar azul, ao baixar os olhos para sua mão, onde Marina segurava. Transformou-se em tempestade; durou menos de um minuto.

Menos de um minuto é tempo suficiente para ler uma poesia, escolher um cd, perder o ônibus, olhar o vazio, não pensar, uma lágrima escorrer pela face.

- Que houve Isa? Porque não anda? - Falou Clarice sendo empurrada por algumas pessoas que vinham atrás na saída da boate.

- Não houve nada, um engano apenas.

- Vamos - respondeu Isadora, virando-se para o lado oposto de Gabriela, que ficou parada no meio da calçada, olhando ela se afastar com aquela mulher.

Um comentário:

  1. Segundo capítulo, arrebatador, delicioso, nota mil!
    Estou adorando, é uma estória envolvente, também estou amando as personagens, ambas com personalidade muito forte; já estou imaginando o que vem por aí! Bela estória. Bjs

    ResponderExcluir