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quarta-feira, 30 de maio de 2012

QUANDO OS OLHOS FALAM

Primeiro romance escrito por Wind Rose. Postado pela primeira vez em 2006.




PLÁGIO É CRIME! NÃO COPIE, CRIE! 
Este texto não caiu do céu, é resultado de MUITO trabalho.
Todos os direitos reservados. 

Proibida a reprodução, adaptação ou disponibilização para download,  no todo ou em parte, através de quaisquer meios, sem a autorização da autora. 
Lei de Direitos Autorais nº. 9.610/98


Lembrando que... Copiar a história apenas trocando o nome das personagens não é fanfiction nem adaptação, é plágio. Por favor, não façam isso, ok?






CAPÍTULO UM

 Vida Nova


A primeira coisa que vou fazer agora é: abrir os vidros do carro e sentir em meu rosto a brisa do mar. Esse cheiro...
É a primeira vez que venho sem ela em cinco anos. Nós nos conhecemos numa praia daqui. Não resistimos uma a outra e nos entregamos inteiras numa relação que parecia eterna. Depois de um tempo de namoro, decidimos morar juntas. Eu me formei, ela terminou o mestrado e fomos trabalhar no interior. Mas como tudo que é eterno, num belo dia de chuva... Terminou.
Ficaram as lembranças de momentos deliciosos, que gosto de lembrar.
Assim, pensando em Ana Paula e ouvindo Nando Reis, atravessei a Beira Mar. Pela primeira vez, não me incomodei com o trânsito de Floripa às 18h de uma sexta feira.
Estava chegando para começar de novo. Aliás, nos meus 29 anos de vida, é o que tenho praticado e muito.
Cheguei ao meu novo apartamento. Vazio!
Amanhã, saio para comprar um fogão, uma geladeira, uma cama, algumas almofadas e sei lá mais o quê. Não quero pensar nisso agora, afinal, tenho ainda a segunda feira para ajeitar as coisas. Começo no Banco na terça. Hoje, vou dormir num hotel.
Meu celular está tocando: “Já vai... Calma... Onde está?”
- Oi.
- Isa, minha filha, chegou?
- Cheguei, mãe. Tudo certo. Estou no apartamento, mas já vou sair pra achar um hotel. Não dá pra ficar aqui ainda.
- Ah! Filha, queria ter ido para te ajudar, mas seu pai não pode ficar sozinho. Enquanto não puder caminhar tenho que estar sempre aqui.
- Eu sei, mãe. Como ele está?
- Bem, mas reclama de tudo.
- Então tá bem.
- Me liga, tá?
- Ligo sim. Beijos em vocês todos.
- Beijo filha. Cuide-se!
Faz dez anos que saí da casa de meus pais para morar fora, mas para eles, é como se eu ainda fosse uma menininha. Tenho que mantê-los informados de tudo. Aceitaram, com certo receio, minha decisão de viver com Ana Paula. Na época, dividia uma casa com algumas meninas. Nunca falamos abertamente sobre isso, mas não foi necessário. “Quero vê-la feliz”, minha mãe falou. “Se é o que tu queres”, disse meu pai. E assim foi, até agora.
Apartamento vazio tem eco. Está me deixando pra baixo. Amanhã, depois das compras, vou à praia. Quero ver gente bonita, bronzeada, com cheiro de sol. Quem sabe faço uma tatuagem. Isso! Sempre quis. Marcarei assim essa mudança.
Preciso achar um hotel. Preciso achar muitas coisas. Isa, você vai acabar ficando maluca! É muita coisa pra pensar.
Achei uma pousada próximo ao meu apartamento e fiquei. Só queria um banho, comer qualquer coisa e dormir. Estava ansiosa para começar vida nova. Sim, porque neste momento, na minha mente, ainda era transição. Estava no limbo, entre aquilo que deixei e aquilo que ainda não começou. Dormi.
No sábado acordei cedo, e às 9h já estava no centro da cidade, andando de uma loja para outra. Sempre tive facilidade para comprar. Escolhi aquilo que me pareceu de maior utilidade: uma cama - de casal, claro! Um guarda roupas. Estante. Fogão. Geladeira. E algumas almofadas para colocar na sala. Com o tempo, comprarei algumas coisas para decoração. Tenho dificuldade com isso, sou prática demais. As coisas subjetivas eu deixava para Ana Paula, mas agora... Ainda bem que tem armários na cozinha. Preciso de uma máquina de lavar roupas. Isso sim é importante! Como fui esquecer?
E assim passou a manhã e parte da tarde. Voltei para o apartamento, ainda aquele eco... Está tarde para ir à praia e meus móveis só chegam na segunda... Tenho que voltar para a pousada. Tudo bem, acho que vou dar uma volta, quem sabe uma boate? Quem sabe muitas coisas.


Gabriela acordou com o barulho das ondas batendo nas pedras e com o sol já querendo invadir seu quarto através da cortina de bambu.
Preguiça... “Hmmm!”, virou para o lado e deu um beijo na mulher nua ao seu lado.
- Bom dia, Linda.
- Não quero acordar, deixa eu dormir mais um pouquinho... - Respondeu Luiza, já se encaixando em Gabriela.
Ficaram mais meia hora naquela preguiça deliciosa, embaixo dos lençóis.
- Gabi, acorda! Você tem clientes esperando, seu irmão gritava e batia na porta.                         
Gabriela respondeu:
- Tô indo, já vou. Puta que pariu, para de gritar!
- Também tenho que levantar, Gabi. Tenho que ir. - Falou Luiza, num sorriso, beijando-a.
Foram para o banho. Mais meia hora...
Luiza se despediu de Gabi com um beijo.
- Você é deliciosa, menina.
E desceu as escadas em direção ao seu carro. Gabriela ficou na porta observando aquela mulher linda que lhe dava muito prazer. Sempre que podia e queria a procurava. Luiza era casada, morava em outra capital e, de vez em quando, passava alguns dias em Florianópolis.
Seu marido era um empresário do ramo de pneus e dificilmente acompanhava a mulher. Luiza aproveitava para realizar seus desejos secretos com Gabriela, que não se negava a oferecer tudo o que Luiza buscava. Além de se entenderem muito bem na cama, conversavam abertamente sobre suas vidas. Luiza contava a Gabriela os problemas com seu marido e seu filho adolescente e Gabriela dividia com Luiza seus conflitos com alguma garota, seus sonhos.
Gostava de divagar, viajar, tinha muitas idéias e também seus problemas no trabalho. Antes de aparecer, Luiza sempre telefonava, para evitar causar algum transtorno para Gabriela, caso ela estivesse namorando alguém.
E assim elas se mantinham. Luiza dirigia em direção a sua casa pensando que a qualquer momento sua Gabi encontraria uma mulher que a completaria e seus encontros ficariam na lembrança. Sabia que Gabi não conseguiria dividir amor, atenção. Ela era muito intensa, em tudo.
A primeira vez que a vira, numa boate há seis meses, tinha ficado encantada com aquela menina. Linda, bronzeada, cabelos escuros ondulados, caindo sobre os ombros. Uma tatuagem que começava na nuca e descia por dentro da blusa. Mais tarde descobriu as outras. Olhos castanhos esverdeados, o olhar profundo. Na noite em que a encontrou, não pensou duas vezes: “quero essa menina!” . E conseguiu.
Gabriela entrou em casa já sabendo o que ouviria do irmão. Tentou amenizar.
- Bom dia maninho! - Disse dando-lhe um beijo.
- Gabi, você é foda. Vai se ferrar com essa mulher, ela é casada e você, maluca! 
- Não enche maninho. Há essa hora não, tá? Preciso tomar um café.
- Quando você vai criar juízo, criatura! Se liga Gabi! - Esbravejou e antes de sair pela porta, já mais calmo disse: - O cara que marcou às 10h está te esperando já tem meia hora. Viu todos os álbuns. Não dá mais pra enrolar.
- Se ele não quiser esperar passa ele pro Daniel, que saco! - Gabi esbravejou.
- O Daniel está com cliente e tem mais: ele quer você. Hoje você tem mais 6 marcados. Portanto, anime-se.
- Que sábado! Droga!
Gabriela adorava seu trabalho, mas às vezes queria mais tempo para se divertir. Ir à praia. Principalmente num sábado, inicio de verão. Ah! As areias cheias de gente bonita. Aquelas gatas ainda branquinhas,  outras bronzeadas, todas lambuzadas de óleo. “Hmm! Hoje não poderei ir ao mar... Droga!”.
Toda manhã Gabriela mergulhava antes de começar seu dia. O mar era sua fonte de energia. Pensava no que estava perdendo enquanto se preparava para começar o dia.
Gabriela entrou na sala e se deparou com um garoto queimado do sol, cheio de tatuagens no braço. Surfista. Sentado e folheando o book de desenho de Gabi.
- Olá, bom dia. Já sabe o que vai fazer? - Perguntou a ele, enquanto vestia as luvas e pegava seu material.
- Oi, já sei sim. Esse aqui! - E apontou para um coração em chamas.
- Ok, vejo que já fez outras. Já tem experiência mas, mesmo assim, quero que preste atenção. - Disse sentando-se na frente dele e abrindo o pacote de agulha descartável. Foi explicando a ele como faria e as orientações de praxe.
Começou o trabalho e como sempre, concentrou-se como se nada mais houvesse. Trabalhava com muita precisão e seu trabalho era reconhecido. Era uma artista e o corpo, sua tela. Buscava a perfeição e era conhecida como uma das melhores da cidade.
Assim Gabi começou seu dia e terminou. O último cliente saiu próximo às 20h.
- Preciso de um banho! - Falou quando passou pelo irmão que arrumava as revistas na recepção.
- Também tô exausto. Hoje quero só dormir. Além do mais, começou o verão, maninha. Todo mundo quer colorir seus corpos. - Disse sorrindo.
- Eu sei, mas o Daniel podia ajudar, né? Saiu hoje às cinco horas, eu vi. - Gabriela falou com tom cansado.
- Mas todo mundo quer você. O que o pobre vai fazer? Ele até que tenta, mas...
Não terminou a frase pois foram interrompidos por Fernanda, que entrou correndo na recepção e se pendurou no pescoço de Pedro.
- Terminou por hoje? Tô com saudade! - Foi falando e beijando o rosto de Pedro.
Sorrindo, Pedro olhou para Gabriela que disse:
- Dormir ? Coitado...
Saindo do banho, Gabriela ouviu o celular.
-Oi
- Gabi, sou eu. Passo aí daqui a pouco. Vamos dançar.
- Ai Marina tô podre. Hoje foi foda.
- Significa que foi bom, não tem desculpa. E aquela sua sei lá o que ela é sua. Já foi?
- Já. Deve ter viajado à tarde, respondeu Gabriela.
- Então tá, passo às dez. Beijo.
- Escut...!!! - Desligou.


Puxa vida, tudo o que eu precisava era dormir, depois de uma puta noite dessas, um dia cheio. Minha caminha, ali... Ok, mas não custa dar uma volta. Vai que acho o amor da minha vida. Riu do próprio pensamento.
Isadora chegou à boate perto da meia noite; lotada, que bom! Assim passo despercebida, sento naquele balcão, bebo alguma coisa, dou um tempo e aqueço para entrar nesta nova vida que me espera.
Depois de alguns goles, já estava alegre. Muita gente bonita, adoro esta cidade. Tinha se esquecido de como é boa a vida. “Que menina bonitinha, nossa! pena que está acompanhada. Aliás, bem acompanhada, que beijo! Ui, deu até da vontade”. Assim Isadora foi fazendo um inventário do local. “Esta com aquela; a loirinha com a morena; a ruiva não pára de olhar para a mulata. Nossa!, que linda. Adoro mulatas!”
- Quer outra dose moça? Perguntou o garçom.
- Quero sim, por favor, respondi.
A música, as luzes. Preciso me mexer senão não levanto. Vou dar uma volta.
Do outro lado da boate...

- Marina, pára com isso. Não está vendo que a menina está acompanhada. Daqui a pouco a namorada dela vem aqui, aí quero ver o que vai fazer, disse Gabi.
- Vem nada e ela nem está a fim dela. Olha só, não para de me olhar, respondeu com um sorrisinho safado.
- Ai, Ai, Ai. Isso não vai terminar bem.
- Calma linda, relaxa. Olha quanta gente bonita, adoro verão, disse Marina, mostrando a pista de dança pra Gabi, que já tinha bebido 3 martinis e precisava ir ao banheiro.
- Já volto. Vê se não apronta, falou para Marina.
- Quem fala, respondeu.

Gabriela atravessou por entre as mesas e passou pelo balcão, tendo que desviar de algumas pessoas que dançavam por ali ou se agarravam entre as mesas. Por um momento, algo a fez parar.
Isadora desceu do banquinho que estava próximo ao balcão e virou-se. Não conseguiu se mexer naquele segundo eterno que se seguiu.
Seus olhares se cruzaram e se fixaram. O tempo parou: não havia música, vozes, ninguém.
Gabriela viu o mar azul, o céu, o calor. Sentiu o suor nas costas, uma vontade de se jogar de encontro às águas e se perder na intensidade daquele olhar.
Isadora viu um vulcão. As chamas que ardiam, queimavam-lhe inteira. Sentiu que começou a ficar com a face vermelha. Era como uma força que a puxava de encontro às chamas; um turbilhão incandescente, sem fim, profundo.
Alguém empurra Gabriela, que sai de seu transe. Precisava continuar caminhando; as pessoas empurravam para chegarem ao outro lado, onde ficavam os banheiros.
Isadora voltou a si, perdeu o contato daquele olhar. Não encontrou mais. Pensou em ir atrás, mas não conseguiria atravessar de onde estava; as pessoas se aglomeravam.
Resolveu dançar e foi para a pista.

Gabriela saiu do banheiro e buscou novamente pela dona daquele olhar, mas não encontrou mais. “Puxa, o que aconteceu?” Pensava enquanto procurava Marina, que a esta altura estava atracada na boca de uma menina na pista.
Resolveu voltar para a mesa, mas o olhar, agora, tinha objetivo: procurava por todos os lados, até que a viu dançando. “Nossa! Que mulher linda!” Cabelos castanhos claros, olhos azuis, um corpo maravilhoso, dentro de uma saia longa e uma blusinha que deixava sua barriga aparecendo, conforme os movimentos da dança. O cabelo balançava junto com o corpo. “Conjunto perfeito, que vontade de tocar”.
Ficou ali imóvel, observando aquela mulher que a fez perder o chão com um olhar. Não tinha coragem de se aproximar. Ela não parava de olhar. “Não posso ficar aqui parada.” Vamos, mexa-se sua tonta! Isso, caminhe devagar.  Dê tempo dela fugir se quiser. Acho que não quer fugir.”
Isadora, movida por várias doses de wisky, dançava, flutuava. “Será que ela não vem aqui? Porque fica me olhando? Porque não se aproxima? O que eu faço? Que menina linda. Aquela tatuagem na nuca, no braço, onde mais? Aquele cabelo, que boca! Vou olhar para ela. Será que ela vem? Deu certo. O que faço agora? Está vindo, meu Deus!”

CAPÍTULO DOIS

 UM ENCONTRO

Gabriela se aproximou. “O que digo? Nada, ela não vai me ouvir mesmo. Nunca me senti tão insegura. Vai Gabi, você é pegadora!”, disse para si mesma. Movida pelo instinto ou pela vontade, segurou Isadora pela cintura com uma mão e com a outra afastou seus cabelos para trás. Puxou-a para próximo de seu corpo, encostou a boca em seu ouvido e disse:

- Estava te procurando. 

Isadora sorriu e fez o mesmo; falou próximo ao ouvido de Gabi:

- Já Encontrou.

Afastou o rosto e seus olhos se encontraram pela segunda vez. Calor, maremoto. Gabi se aproximou da boca de Isadora. Devagar, encostou, primeiro passou os lábios nos dela, como se quisesse sentir a textura. Segurou o lábio inferior com os seus. Isadora fez o mesmo com o lábio superior de Gabi. Estavam se experimentando. Trocaram, Isadora apertou, deu uma mordida leve, devagar, sem pressa. Os corpos se movendo no ritmo da música. Gabi passou a língua, Isadora abriu a boca e Gabi entrou. Beijaram, explorando, com calma. Uma língua procurando a outra. Conhecendo, até que as bocas se mostraram sedentas, uma da outra. Aos poucos, a avidez toma conta das duas: uma sugando a outra, explorando com suas línguas... Entregaram-se naquele beijo. Não percebiam mais a música, nem as pessoas. Tudo, num único momento.

Um momento: tempo indefinido, o suficiente para escrever uma frase de amor, lembrar a letra de uma música, ver o sol surgir no mar, ficar em cima de uma onda, alguém gritar: “Terra à vista!” . Descoberta, êxtase!

Até que...

- Gabi, temos que ir embora, rápido! - Marina chegou empurrando os casais que dançavam e tirou Gabi dos braços de Isadora.

- Tá louca? O que houve? - Perguntou Gabi.

Quando terminou de falar, viram uma mulher vindo em direção a elas, pronta para avançar em Marina.

- É a namorada daquela menina. Ela nos pegou num beijo e vai me matar. Vamos, rápido! Vem! E puxou Gabriela pela mão, passando no meio das pessoas, empurrando, correndo.

Gabriela olhava para trás. A mulher correndo atrás delas enfurecida enquanto só conseguia pensar: “Onde ela está?”

Parou de correr:

- Me solta Marina. Para!

“Perdi ela. Não perguntei o nome, não sei o telefone. Droga! Se essa mulher não te matar eu vou!” – Pensou, mas não falou.

Saíram porta a fora da boate, em direção ao carro. Quando entraram no carro, Marina acelerou. Ainda viram a mulher xingar no meio da calçada.

Isadora procurou Gabi no meio da pista, entre as mesas. Que loucura! O que foi isso? Aquela maluca a puxou e saíram correndo com a outra maluca atrás. Nossa, que beijo! Como vou encontrar essa menina? Não sei nem o nome. Será que era a namorada? O QUE FOI ISSO!?

- Desculpa, desculpa - dizia Marina baixinho.
- Que merda Marina, eu te avisei que ia dar merda.  Preciso voltar lá! - dizia Gabi gritando.
- Eu não posso. Você viu, ela era enorme. Se me pega acaba comigo.
- Droga! Droga! - Batia com a palma da mão na própria testa - Como vou encontrá-la? Não sei nem o nome - falou quase num sussurro pra si mesma.
- Por que antes de agarrar a mulher, você não perguntou o nome, o telefone, o CPF...
- Cala a Boca!
- Tá, não falo mais, desculpa. Não queria estragar sua noite... - falou olhando em desespero para Gabi.

Isadora tomou um banho e foi pra cama, pensando naquele olhar, naquele beijo.

“Tenho que encontrá-la, voltar naquela boate de novo. Preciso encontrá-la.”

Lembrou das sensações que sentiu com aquele toque, aquela boca. Ficou excitada, não conseguia dormir. Imaginou aquela boca em seu corpo e não foi difícil aliviar a vontade. Depois dormiu.

Gabriela olhava para o teto do seu quarto, mas não via nada, somente aquele olhar. Precisava tocar naquela mulher, beijar aquela boca. Aquele corpo maravilhoso, nu, na minha cama. Abraçou o travesseiro, sentia vontade de fazer amor com ela, precisava; se tocou e dormiu.

Isadora acordou tarde, tomou banho, café e saiu da pousada. Foi até seu apartamento, fez uma faxina geral. Queria ocupar seu tempo e sua mente, mas não adiantou muito. De vez em quando, flashes daquela noite apareciam em sua mente. Passou parte do domingo no apartamento e depois voltou para a pousada. Já era tarde e ainda não tinha almoçado. Sentiu fome, pediu um lanche e ficou na frente da TV pensando naquele olhar, no beijo. Dormiu cansada. Seu último pensamento: um olhar.

Acordou perto das dez da noite e terminou o domingo lendo material do Banco, pois tinha que se inteirar da rotina da nova agência. Tinha esquecido o trabalho, o Banco.

Gabriela acordou e foi para praia, como sempre fazia. Como no domingo não trabalhava, aproveitou para caminhar, conversar com amigos na praia e brincar com Xis, um labrador branco, orgulho de sua dona. Enquanto corria com Xis, relembrou todos os detalhes daquela noite, do encontro inesperado, daqueles olhos azuis.

Almoçou com Pedro no restaurante de Dona Ziza, que consideravam uma segunda mãe, desde que seus pais haviam morrido em um acidente na BR, há alguns anos. Pedro tinha 20 anos e assumiu a guarda da irmã. Desde então, Dona Ziza tomou conta dos dois e se preocupava para não deixar faltar nada que estivesse ao seu alcance, inclusive colo. Dona Ziza não tinha filhos; transferiu para eles todo o carinho que tinha.

Pedro estava com 28 anos e Gabriela com 24 mas, para Dona Ziza, eram crianças. Sempre preocupada. Os pais deixaram além de uma casa, numa das melhores praias da ilha, um apartamento próximo a universidade, que mantinham alugado para estudantes e um seguro em dinheiro, que os irmãos investiram na loja de tatuagem, a qual Pedro administrava com todo cuidado, realizando, assim, o sonho de Gabi.

Pedro forçou, literalmente, Gabi estudar. Fez com que entrasse na universidade. Ela se formou em ciências sociais, mas nunca trabalhou na área. Fez diversos cursos de arte e se especializou em tatuagens, sua grande paixão. Pedro cursou administração, que coloca em prática na loja. A casa que herdaram transformaram num grande negócio. Tinham uma grande artista e um bom administrador; e um funcionário, Daniel.

- Você está muito estranha minha irmãzinha, o que houve? Que olhar distante é esse?
- Nada Pedro, depois falo, olha a Ziza aí, respondeu.

Dona Ziza serviu os irmãos e se sentou com eles.

- Vocês dois precisam se alimentar. Olha essas olheiras, falou colocando a mão no rosto de Gabi.
- Que nada Ziza, ela ontem foi pra putaria, por isso tá assim.
- Que isso Pedro, não fala assim da sua irmã.

Os dois caíram na risada. Almoçaram fazendo brincadeiras que deixavam dona Ziza encabulada. Os irmãos saíram abraçados do Bar da Ziza e Pedro perguntou:

- Vai me contar?
- Ontem encontrei uma garota na boate - falou e suspirou.
 - Que ótimo! Como foi? Me conta tudo.

Foram caminhando e Gabi contando ao irmão o que havia acontecido na noite anterior. A cada cena empolgante ele dizia: Puta que pariu!

No final do relato Gabi perguntou:

- Será que vou conseguir encontrá-la de novo?
- Vai sim, vou te ajudar. Vamos fazer plantão naquela boate. Só abre quinta, né? Faremos vigília, falou rindo. O que acha?
- Você é o melhor irmão do mundo, sabia? Mas não vamos exagerar, né? De repente encontro ela e ela nem se lembra de mim. Então, deixa rolar. Vou lá, sem compromisso, sem expectativas. Falou com olhar preso ao mar, acentuando os tons verdes.
- Certo, você quem sabe. Deixa rolar, só me mantenha informado ok?
- Que acha de um cineminha? Combinei com a Fernanda, topa?
- Não Pedro, vou ficar em casa. Tenho um stencil difícil pra terminar até terça. Assim me distraio, ok?
- Tá bom maninha, faça o que achar melhor. Deu um beijo em sua testa e entrou na casa.

Pedro quando soube da preferência da irmã por mulheres, a princípio ficou preocupado, não entendia muito bem. Mas, com o tempo, aceitou e a apóia.

Gabi ficou ali, por mais uns instantes, olhando o mar e lembrando daqueles olhos azuis.

Segunda feira. Isadora acordou cedo, pois seus móveis chegariam ainda de manhã. Fechou a conta, pegou a mala pequena, que havia separado com algumas roupas para ficar na pousada e foi para seu apartamento.

Esperou até as dez horas. Já estava a ponto de ligar para a loja, mas daí o interfone tocou. Chegou!

Em menos de meia hora já estava com tudo dentro do apartamento. O montador havia começado a desencaixotar o roupeiro e a montar: “Vai ser rápido moça, vai ver só, faço isso rápido”, disse num tom de exibicionismo.

Isadora riu e foi pra cozinha. Ligou a geladeira, limpou, colocou algumas coisas que tinha comprado. Foi até o quarto; o montador estava parado de pé, com uma mão na cintura e outra coçando a testa. Isadora pensou: “fácil é?”. Resolveu arrumar o armário, louças, panelas, copos, talheres, tudo novo. “Assim que eu gosto”, pensou. Não trouxe nada de sua ex casa, não queria nada que lembrasse Ana Paula. Assim seria mais fácil.

Depois de três horas foi até o quarto. “Puxa, até que enfim terminou”, disse ao montador, que suava como um camelo no deserto.

– Em, esse foi mais difícil, mas ficou bom.
- Certo, muito obrigada! - Disse já se dirigindo para a porta e abrindo para ele sair.
- Tchau moça e boa sorte.
- Pra você também. E fechou a porta.

Encostou-se à porta pelo lado de dentro, escorregou até o chão, sentou, pensou em tudo que passou nos últimos anos, em todas as vezes que começou e recomeçou. Na vida que tinha, nos sonhos, em Ana Paula, no dia que se encontraram no bar do Xico. Chorou, chorou pelas lembranças boas, chorou por estar esquecendo Ana Paula, chorou até secarem suas lagrimas.

“Chega Isadora! Agora sua vida vai mudar”, falou alto para sim mesma e se lembrou daquela menina linda que beijou na boate.

E assim terminou seu dia: arrumou o que faltava no apartamento, limpou, ligou para sua mãe, tomou banho e foi dormir. Seu último pensamento: aqueles olhos profundos que lhe queimaram a pele, aquela voz no seu ouvido, aquele beijo.
  
 
Segunda era dia de limpeza na loja de Gabi e Pedro. Não marcavam clientes e aproveitavam o dia para organizar, limpar, conversar e planejar tudo o que não conseguiam durante a semana.

Gabi terminava alguns desenhos e Pedro selecionava alguns cds para deixar disponível para a semana.

- Gabi, estive pensando. O que acha de tentarmos expandir a loja?
-Como assim Pedro? Expandir pra onde? - E riu.
- Não disse isso. Estive pensando naquela franquia que nos ofereceram, lembra? A loja de materiais de Surf, acho que podíamos pensar, não acha?
- Não sei Pedro, acho que estamos muito bem assim. Além do mais, não temos o dinheiro que eles pedem para o investimento.
Gabi olhou para Pedro preocupada, sabia que o irmão já havia decidido.
- Isso posso tentar no Banco, afinal, somos ótimos clientes, sempre trabalhamos direito. Amanhã mesmo vou ao banco - disse e sorriu para Gabi.
- Se quiser tentar tudo bem, mas não quero mudar minha vida, que isso fique bem claro, ok? - Olhou nos olhos do irmão.
- Não se preocupe, não vai mudar, vai melhorar! - Falou enquanto abria uma garrafa de água.
- Melhor? Minha vida é ótima, faço tudo que gosto, tenho quase tudo que quero, que mais poderia querer? - Mas lembrou: encontrar de novo aquela mulher linda.
- Certo, mas mesmo assim, vou ao banco amanhã. Disse e saiu, deixando Gabi com seus desenhos e pensamentos.

Isadora chegou ao Banco antes das oito da manhã. Teria um dia cheio: reuniões com gerência, conhecer a carteira que assumiria, conhecer colegas, clientes, estava ansiosa.

- Bom dia, deve ser a Srta Isadora? - Perguntou um senhor grisalho e charmoso.
- Sim sou, bom dia - respondeu já sabendo quem deveria ser aquele homem
- Ótimo, meu nome é Marco Aurélio, gerente desta agência. Quero lhe mostrar a agência e depois sua mesa, por favor...
- Sim senhor...
- Isadora, temos que combinar algumas coisas: primeiro, não me chame de senhor; segundo, qualquer dúvida me chame; e terceiro, quero que esteja bem à vontade para falar e dar sugestões sobre a carteira de clientes que vai assumir, ok? - Falou olhando para Isadora, diretamente em seus olhos, com uma expressão que lhe transmitia segurança, o que a deixou um pouco mais tranquila.
- Desculpe sen..., digo, Marco Aurélio. Com certeza, depois de me inteirar das contas, vou querer conversar com o senh..., digo, com você.
- Certo, você vai ver que não muda muito daquilo que já estava acostumada. A diferença é o volume. Aqui vai trabalhar com uma carteira maior, mas os problemas são os mesmos. Vou deixá-la se familiarizando e quando o pessoal chegar, começo as apresentações. Vai gostar da equipe.

Enquanto falavam, caminhavam pela agência. Marco Aurélio foi explicando a Isadora o funcionamento e mostrou sua mesa.

- Obrigada, respondeu, estava ansiosa. Será que iriam gostar dela?

Seria uma das gerentes do Banco que assumiria a carteira de micro empresas. Tinha que dar certo...

Na parte da manhã, Isadora conheceu os funcionários, teve algumas reuniões com outros gerentes e foi se ambientando, adaptando-se as novas pessoas. Estava gostando, os funcionários do Banco a analisavam: nova gerente, mulher bonita. Foi alvo de olhares de cobiça por parte de alguns.

- Ela não sorri - disse Clarice para Marta.
- Deve ser uma pedra - respondeu a outra.
- Será que vamos ter problemas?
- Vamos descobrir, já... já - disse Marta, que foi em direção a mesa de Isadora e a convidou para almoçar .

Almoçou com um grupo que saiu 13:00: Marta, Clarice, Gustavo. Conversou, riu, ouviu histórias engraçadas e voltou para o Banco, mudando, assim, a opinião de Marta e Clarice.

- As aparências enganam, viu? - Disse Marta para Clarice.
- Tem razão, engana mesmo e como! Aqui no Banco parece tão séria, fria, mas no fundo é um doce - respondeu a última palavra como num suspiro, sem tirar os olhos de Isadora.

Estava em sua mesa analisando alguns papéis quando Gustavo a chamou. Gustavo era um dos gerentes que divide a carteira de empresas com Isadora.

- Isadora este é Pedro um de nossos clientes. Por favor Pedro, sente-se aqui. - Puxou a cadeira na frente da mesa de Isadora.
- Boa tarde Pedro - falou Isadora e pensou: “mas já!”
- Olá!  - Respondeu Pedro, sentando-se.
- Isadora, Pedro quer expandir seus negócios e precisa de auxílio financeiro. Vou deixá-lo com você, ok?
- Certo, obrigada Gustavo. Pode deixar que eu assumo daqui, respondeu Isadora demonstrando segurança.

Pedro explicou à Isadora seus planos. Disse quanto precisava e que objetivava um empréstimo. Isadora ouvia atentamente, embora a estória fosse sempre a mesma. Já estava acostumada.

- Pedro, é uma quantia bastante alta, você concorda não? Você sabe que precisamos de garantias e as que oferece estão bem aquém do dinheiro que precisa.

Pedro olhou para ela irritado, já demonstrando irritação.

- Temos condições de pagar, falou. Pode verificar nosso faturamento.
- Não estou duvidando disso, mas aqui só podemos contar com coisas concretas e, no momento, o valor que pode dispor do banco seria, no máximo esse: e mostrou o valor no papel. - Continuou... - Você quer partir de um negócio singelo para um grande empreendimento, tem que ir com calma. - Fez mais algumas explanações técnicas sobre o processo e esperou a reação de Pedro.

Pedro demonstrou sua indignação com o olhar, levantou e saiu irritado. Abriu a porta do Banco, nem olhou pra trás.

Isadora pensou: muito bem, começou! Mas Gustavo poderia ter esperado mais um dia para transferir os clientes para ela. Tudo bem! O dia passou; atendeu alguns clientes, conversou com colegas e, de vez em quando, pensava naquela menina, naquele beijo. Queria encontrá-la de novo.

Gustavo passou por ela no final do dia e perguntou:

- Como foi seu primeiro dia? - Sorriu.
- Foi ótimo, tirando o fato de que alguns saíram correndo - falou Isadora.
- Então já está adaptada - deu uma gargalhada.
- Isadora, por favor, venha até minha mesa - chamou Marco Aurélio.

Marco Aurélio queria saber como tinha sido seu primeiro dia e se tinha algo que pudesse ajudá-la.

Depois da conversa com Marco Aurélio, Isadora estava saindo do Banco, quando Marta e Clarice a chamaram para tomar um chopp na lanchonete próxima ao Banco. Ela aceitou.

A conversa foi agradável. Contaram de suas vidas. Descobriu que Marta era casada e tinha um filho. Clarice havia se divorciado há 1 ano. Estava em busca de um novo amor, segundo ela. Quando chegou sua vez de falar, contou que tinha saído de uma relação há pouco tempo. Omitiu alguns detalhes, afinal não precisavam saber mais do que isso.

Combinaram de ir à praia qualquer dia. Clarice estava empolgada em falar de alguns bares para a nova amiga. Enquanto falava, tirou a blusa, ficando com outra, de alcinhas, com um decote deixando aparecer uma tatuagem que tinha acima do seio direito.

Isadora disfarçou, mas olhou. Era uma rosa vermelha, muito bonita. Perguntou:

- Onde você fez sua tatuagem?
- Numa praia aqui, em Floripa. Se quiser, te levo lá, gostou? Perguntou com meio sorriso entre os lábios.

Isadora não entendeu ou entendeu?

- Gostaria sim, estou pensando muito em fazer uma, mas ainda não sei o que, nem onde - e riu.
- Então vai gostar, porque a menina que faz é muito boa. Ela te ajuda a escolher. Inclusive, faz o desenho na hora.

Depois de mais um chopp, resolveu ir para casa, afinal, para o primeiro dia estava de bom tamanho.

Pedro chegou em casa depois das 20:00. Gabriela já estava preocupada, quando ouviu a porta da sala bater.

-Pedro, onde esteve? Saiu cedo e está chegando agora? Que houve?
- Não consegui o empréstimo! - Esbravejou.
- Não fica assim, sabia que era difícil - tentou acalmá-lo .
- Mas aquela prepotente sequer me deu chance. Uma grossa, mal amada, fria!
- Pedro, calma. O que tem a ver isso com o fato de não termos condições de pegar o empréstimo? Você já sabia disso. Não é o primeiro “não” que você ouve.
- Tem que, ela não fez o menor esforço de entender, de me ouvir, não me deu chance. Ainda chamou nossa loja de “singela”, acredita? - Falou e foi para o quarto.

Gabi pensou: “eu sabia, mas é teimoso; agora sofre”. Continuou o que estava fazendo, sentada, olhando o teto e pensando naquela mulher.

A semana passou rápido para Isadora. Estava ansiosa para chegar quinta-feira. Iria à boate novamente, procurar aquela menina que não saia de sua cabeça.

Chegou em casa perto das nove, saiu tarde do banco, pois teve reunião com Marco Aurélio e outros gerentes. Tomou banho, relaxou, vestiu-se. Vestido colado ao corpo, preto, sandália, maquiagem leve, perfume – Eternity, cabelos soltos. Olhou-se no espelho, falando para si mesma: “Isadora Marinho, se eu encontrar uma mulher como você eu pego!”.  Riu e saiu.

Dona Ziza entrou correndo na casa de Gabi e Pedro dizendo:

- Preciso de vocês. Tenho um aniversário no bar, marcaram de última hora. Não consigo gente para trabalhar agora, vocês têm que me ajudar.
Parecia uma metralhadora, não parava de falar.

- Calma Ziza, claro que te ajudamos - falou Pedro olhando para Gabi que o fuzilou.
_ Eu não posso, hoje não! - falou indignada, sabendo o que aconteceria.
- Tudo bem minha filha, não se preocupe - falou dona Ziza, com olhar de pânico.

Pedro olhou para ela, ela olhou pra Ziza e disse:

- Tá bom mas, no máximo, meia noite saio, certo?

Dona Ziza deu um beijo nos dois e correu para o restaurante. Pedro e Isadora foram logo depois. No caminho, Pedro pediu para Fernanda também ir para ajudar, o que prontamente concordou. Adorava estar com Pedro.

Isadora chegou na boate passava um pouco da meia noite. Estava ansiosa, mas tentava se manter no controle da situação. Como sempre não demonstraria. Sentou-se no balcão e pediu uma dose de whisky. Olhou ao redor, tinha menos gente do que na semana passada. Ainda era cedo, do local onde estava, conseguia ver a porta e observava as pessoas que entravam, procurando.

- Mais um, por favor - pediu para o garçom.

Já era quase uma hora, estava ficando nervosa com os olhares e cantadas que recebia. Percebeu uma pessoa chegar por trás e ouviu uma voz conhecida.

-Você aqui? Estou surpresa.
- “O...oi Clarice - disse virando-se para ela.

Droga, tudo que eu não precisava: encontrar uma colega do Banco numa Boate GLS. Mas que idiota, claro que corro esse risco. Não devo ser a única lésbica que trabalha naquele Banco de merda. Droga, onde está essa menina?

- Está sozinha? Posso fazer companhia para você? Não quero atrapalhar.
- Imagina, senta aí, falou dando um sorriso amarelo.
- Não imaginei que encontraria você aqui - sorriu
- Nem eu achei que você estaria aqui - disse olhando para a porta.
- Está esperando alguém? - Perguntou Clarice, virando-se para a porta
- Eu? Não, claro que não. Por quê?
- Nada, pareceu... - disse Clarice olhando com curiosidade para Isadora.

Gabriela, nervosa, olhou para o relógio: uma e meia. Puta que pariu, pensou, enquanto colocava as garrafas de cerveja vazia na caixa.

- Gabi, minha filha, vai. Você disse que tinha que sair, já atrapalhei muito você hoje. As pessoas já estão indo embora. Você pode ir minha filha, vai!

Olhou para Ziza, deu um beijo na bochecha e saiu correndo. Chegou em casa, tomou um banho rápido, ligou para Marina enquanto vestia a calça jeans desbotada, uma bata indiana, brincos, sandálias. Com as mãos, arrumou os cabelos. Desceu as escadas correndo e esperou Marina.

- Porque demorou tanto? - esbravejou.
- Oi para você também. Hmmm, bonita, cheirosa, vai arrebentar hoje. Aquela mulher vai ficar de quatro pra você, falou Marina.
- Não sei nem se vou encontrá-la, olha a hora, duas e quinze. Até chegarmos lá. E também, nem sei se ela estará lá - falou suspirando.
- Calma Gabi, ela vai estar sim. Depois do que me contou, acredito que ela também queira encontrar você, disse sorrindo com ar malicioso.

Isadora não aguentava mais as investidas de Clarice. Olhou no relógio, duas e quarenta e cinco. Ela não vem.

Enquanto isso, Clarisse pensava: “Isadora ficou a noite toda olhando para porta e eu aqui feito uma idiota tentando chamar sua atenção.” Percebeu que era sua última chance de agarrar aquela mulher linda:

- Que acha de dançar, vamos?

- Desculpa Clarice, adorei sua companhia mas amanhã trabalho e você também. Acho que vou pra casa, disse com ar desapontado.

- Ok, vou com você. E levantou-se junto com Isadora.

- Ali Marina, estaciona ali, que merda! Quase três horas - disse.

- Calma... pronto, vamos - disse Marina, puxando o freio de mão.

Marina pegou Gabi pela mão e caminhou rápido, estavam quase na porta.

Clarice colocou a mão na cintura de Isadora para não a perder no meio das pessoas e se dirigiram para a porta.

Na porta, pela terceira vez seus olhares se encontraram. Isadora viu a decepção estampada no olhar de Gabi, quando desceu os olhos para a mão de Clarice em sua cintura. Transformou-se em raiva, queimando-lhe. 

Gabi viu mar revolto naquele olhar azul, ao baixar os olhos para sua mão, onde Marina segurava. Transformou-se em tempestade; durou menos de um minuto.

Menos de um minuto é tempo suficiente para ler uma poesia, escolher um cd, perder o ônibus, olhar o vazio, não pensar, uma lágrima escorrer pela face.

- Que houve Isa? Porque não anda? - Falou Clarice sendo empurrada por algumas pessoas que vinham atrás na saída da boate.

- Não houve nada, um engano apenas.

- Vamos - respondeu Isadora, virando-se para o lado oposto de Gabriela, que ficou parada no meio da calçada, olhando ela se afastar com aquela mulher.

CAPÍTULO TRÊS


NO OUTRO DIA
Sexta-feira era um dos dias mais movimentados no Banco. Isadora chegou cedo, como sempre, embora não tenha dormido quase nada. Passou o dia analisando algumas empresas que teria que visitar na próxima semana. Precisava se concentrar no trabalho para esquecer o desastre da noite anterior. Atendeu alguns clientes, conversou com Clarice e Marta no almoço. Apesar de Isadora manter uma postura séria, Clarice mostrava-se cada vez mais cheia de sorrisos para ela. No final do expediente, foi pra casa, recusando alguns convites, inclusive de Clarice, para sair à noite. Mas combinaram de ir à praia; Clarice ligaria.

Em casa não conseguia parar de pensar: fui uma idiota em achar que ela voltaria lá por minha causa, nem conheço a menina. De onde será que vinha aquela hora, com certeza da cama de sua namorada. Ah Isadora, você é boba, parte pra outra. Tem a Clarice, ela é bonita, simpática, mas trabalha comigo, não dá. Vou à praia!  E, também, você chegou agora na cidade, não consegue se controlar? Não consegue ficar sem ninguém na sua cama. Isso, amanhã vou à praia. Faz uma semana que estou aqui e não tive tempo. Então será isso. Tenho que esquecer, vou esquecer muito fácil aqueles olhos que me incendiaram, aquele beijo que me deixou molhada, aquela língua deliciosa, aquelas mãos me prendendo, aquelas tatuagens no braço, na mão. COMO VOU ESQUECER !!!!

Gabi estava concentrada em seu trabalho. Terminava uma tattoo que havia começado há alguns dias: uma Deusa indiana que tomava as costas inteira de Bruno. Terminava o sombreamento.

- Que achou? Perguntou a Bruno enquanto este olhava pelos espelhos o trabalho em suas costas.
- Maravilhosa. Gabi você é ótima!!!
- Eu sei, falou rindo
- Agora preste atenção e começou a dar as recomendações de praxe: como usar a pomada, cuidado com o sol, etc., falava enquanto fazia o curativo. Depois saíram do studio.

Despediu-se de Bruno e foi falar com Marina, que a esperava sentada no balcão, apesar dos pedidos de Pedro para que descesse, pois ali não era lugar de sentar.

Quando viu Gabi deu um pulo e desceu.

- Terminou? Vamos dar uma volta? Perguntou Marina.
- Terminei agora. Até vou, mas antes vamos comer alguma coisa, depois saímos.
- Certo, concordou Marina.

Enquanto comiam torradas com geléia, Marina perguntou:

- Vamos voltar na boate hoje? Sexta feira é o melhor dia, vamos?
- Não, depois de ontem, nem pensar. Imaginei tudo, menos que ela saísse de lá com outra. Não quero passar por isso de novo, vou dar um tempo daquele lugar.
- Hoje tem a festa do Eduardo. Mas, já pensou que ela poderia estar te esperando e você não apareceu? E se era uma amiga?
- Agarrada nela daquele jeito? Não, elas estavam juntas, falou Gabi olhando pra baixo e balançando a cabeça.
- Então, vamos esquecer isso e partir pra outra. Daqui a pouco sua, aquela que eu não sei o que é sua, aparece e daí você esquece rapidinho. Aquela mulher que, por sinal, é linda, gostosa... e que olho né? Falou rindo da expressão de Gabi, que olhou pra ela com indignação.
- É, acho que preciso de Luiza, falou já se levantando.
- Quem sabe a festa do Eduardo? Vai ser na praia, vamos? Vai todo mundo.
- È, acho que é melhor. Vamos sim, mas agora quero dar um mergulho, vamos?
 
Gabriela e Marina desceram até a praia pelas escadas dos fundos de sua casa, que tinha acesso direto à areia. Caminharam até o mar. Gabi tirou a camiseta, a calça jeans. Estava de biquíni por baixo e se jogou na água. Nadou por alguns momentos, virou-se e ficou flutuando, olhando o céu que começava a dar os primeiros sinais da noite estrelada, que surgiria em poucos minutos.

Marina ficou sentada na areia observando sua amiga. Achava a água muito fria àquela hora do dia. As duas eram amigas desde a infância. Os pais de Marina se mudaram para aquela praia quando ela ainda era bebê, tinham a mesma idade e viveram juntas as diferentes etapas e descobertas da infância, adolescência e agora, juntas, aprendiam a ser adultas. Quando os pais dela morreram, foi Marina quem ajudou Gabi e ficou sempre ao seu lado. Os pais de Marina gostavam muito dela principalmente porque incentivava Marina a trabalhar no mercado que era de sua família. Marina fugia sempre que podia.

Ficou olhando sua amiga sair no mar e pensando que os Deuses tinham sido injustos. Como colocam uma super gata dessas na minha vida, sendo que o único sentimento que nos une é o fraternal. Via Gabi como uma irmã e Gabi da mesma forma. Se não fosse assim, hmmm! Riu do próprio pensamento.

Quando perceberam que o alvo dos seus desejos não eram os garotos sarados da praia e sim as meninas bronzeadas que desfilavam na areia, tiveram dúvidas sobre o que sentiam uma pela outra. Mas logo perceberam se tratar de amizade, segundo elas, a mais verdadeira amizade.

Gabi se aproximou de Marina e balançou os cabelos.

- Olha como a água tá uma delicia, falou assim que os primeiros pingos chegaram a Marina.
- Para com isso sua! sua!Falou levantando e saindo de perto de Gabi.
- Vamos, falou Gabi pegando suas roupas no chão.
- Não chega perto, caminha mais pra lá, falou Marina

Gabi ria de Marina. Caminharam na beira da praia em direção a casa de Gabi.

Algumas pessoas passavam por elas e viravam a cabeça para olhar, pois Gabi chamava atenção, não só pelo corpo bonito, bronzeado, mas, também, pelas tatuagens que cobriam seu corpo. Tinha na perna esquerda uma sereia em tons grafite que subia em direção ao joelho, pelo lado de fora. Abaixo do umbigo uma pequena flor em tons amarelo e vermelho, com as pétalas abertas e uma abelha pequena que se aproxima pronta para sugar o néctar. Nas costas, começando na parte de baixo, logo acima do biquíni, desenhos com formas orientais que subia pelas costelas fazendo curvas e entrelaçando-se terminando na nuca. No braço direito a face de uma gueixa, na mão direita, acima do polegar, uma cobra oriental, que se movimentava em direção aos dedos. Acima do seio esquerdo, pequenas labaredas que saiam de um sol incandescente. Na parte interna do braço esquerdo, as asas de um anjo. Todas elas feitas por mestres da tattoo. Cada uma tinha sua própria historia e foram feitas em virtude de algum momento de sua vida. Gabi tinha a intenção de aos poucos, preencher seu corpo. Marina também tinha uma tatuagem feita por Gabi: uma mulher exuberante, com lindos seios e cabelos negros caindo pelo colo, com um olhar sedutor, nas costas, do lado esquerdo próximo ao ombro.

Gabi entrou em casa e Marina seguiu para a sua. Combinaram de se encontrar direto na festa, que seria na mesma praia, porém, mais distante do movimento.
   
Marina chegou na festa procurando por Gabi. Deu uns beijinhos em alguns amigos, conversou com outros, passou a mão na bunda de Pedro, que dançava com Fernanda, até que encontrou Gabi conversando com duas meninas que estavam vidradas em tudo que ela dizia. Marina riu e pensou: “que poder”. Chegou perto e só pra provocar enlaçou Gabi pela cintura e puxou-a para si.

- Oi! Você está linda, falou olhando para Gabi, que vestia uma blusa regata curta de cor branca, que acentuava seu bronzeado, uma calça jeans cintura baixa e sandália de couro.

As meninas olharam uma para a outra e tentaram esboçar um sorriso para Marina, que se divertia com os olhares que a amiga recebia e fingia não ver.

- Marina, conhece a Julia e a Carla?”
- Não tive o prazer ainda, respondeu com malícia pra Julia.
- Elas vão ficar uns dias na ilha e querem uma dicas de melhores praias, bares.
- Olha.. se quiserem, posso ajudar, falou com o mesmo olhar e sorrindo.
- Seria ótimo conhecer Floripa com vocês, respondeu Julia, olhando para Marina com um sorriso demonstrando todas as péssimas intenções que tinha, o que fez Marina e Gabi se olharem. Se entendiam com o olhar.

Combinaram de marcar alguma coisa no fim de semana. Conversaram mais um pouco até que Bruno chamou Gabi para conversar com sua namorada. Queria convencê-la a fazer uma tatuagem. Outras pessoas se juntaram a eles e Gabi aproveitou para se afastar. Viu Marina, que fez sinal para que ela se aproximasse. Ainda conversava com Julia e Carla.

-Estávamos te esperando pra dar uma volta, falou Marina com o sorriso mais sacana que tinha.
- Então não precisam mais esperar, estou aqui! Disse e pensou: “quem sabe consigo tirar aquela mulher da minha cabeça”.
- Vamos até as pedras, vocês vão adorar, falou Marina olhando para as duas que eram só sorrisos.

Passaram pela festa e foram caminhando próximo a água em direção oposta às casas.

Carla se aproximou de Gabi e caminhou ao seu lado, fazendo perguntas sobre a praia, sobre o trabalho de Gabi, o que ela achou fascinante. Enquanto caminhava, de vez em quando, encostava seu braço no dela. Marina vinha mais atrás com Julia, rindo e fechando um baseado.

Carla era ruiva, cabelos crespos até o ombro. Pequena, tipo mignon, “muito gostosa”, segundo Marina no outro dia para Gabi.

Julia era morena, cabelos lisos compridos, que caiam pelos ombros e desciam até altura dos seios. Mais alta que Carla, seios grandes, “uma delicia”, segundo avaliação da mesma Marina.

Chegaram nas pedras. Carla e Julia ficaram deslumbradas. Acharam o lugar lindo. Sentaram na parte alta e olhavam as ondas baterem embaixo. A noite estava linda, estrelada e uma brisa suave soprava.

- Linda, falou Carla baixinho.
- A noite? Perguntou Gabi.
- Você, respondeu olhando fixamente para Gabi, já se aproximando de sua boca.

Gabi a recebeu e gostou. Virou-se de frente para ela e a segurou pela cintura, fazendo com que ela se deitasse sobre seu corpo. Gabi levantou o vestido de Carla e o tirou rapidamente, juntamente com a calcinha. Tinha urgência em livrar sua mente daquela mulher misteriosa. Esta era a oportunidade ideal. Teve tempo de ver Marina descendo para trás de umas pedras com Julia. Levantou seu corpo, trazendo Carla junto, no seu colo, de frente. Explorou, com as mãos, as costas, os seios. Carla tirou a blusa de Gabi, que estava com a boca na altura dos seios de Carla. Roçou seus lábios no biquinho excitado, puxou-a para si, passou a língua e sugou com vontade, primeiro um, demoradamente, depois o outro. Carla segurava os cabelos de Gabi e contorcia seu corpo de tesão, gemendo e cavalgando nos dedos de Gabi que, de olhos fechados, imaginava outra mulher em seus braços. Carla gemeu alto quando o máximo do prazer chegou.

Ficaram abraçadas por um tempo e Carla quis retribuir a Gabi o prazer que recebeu. Terminou de tirar a calça jeans de Gabi, a calcinha e fez com que ela deitasse em cima das roupas para não se machucar. Deliciou-se naquele corpo que desejou desde o inicio da festa. Primeiro sentiu com a mão o desejo de Gabi, enquanto beijava sua boca e descia para os seios. “E que seios!!!”, pensou, quando viu sua respiração acelerar. Falou baixinho em seu ouvido: “me dá agora !” e desceu com a língua, com a boca, sugou com vontade, até que recebeu todo o prazer de Gabi.

Ficaram deitadas olhando o céu estrelado e, ao longe, a brisa trazia sussurros e gemidos. Olharam-se e riram. Assim ficaram olhando o céu e pensando que poderiam ficar ali por toda eternidade.

Eternidade é um tempo definido somente por quem a pensa. Pode ser algo entre o nascer e o morrer; algo entre o morrer e o renascer muitas vezes; ou simplesmente o tempo suficiente para se recuperar de um gozo.